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quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Mudança de comportamento entre o passado presente e o hoje

“Se tanto amor dentro de mim eu tenho
E, no entanto, eu continuo inquieto
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais”

Clarice Lispector
O que seria de minha vida hoje se as ações do passado recente tivessem sido outras? Essa é uma dúvida que me permeia o pensamento, mas não porque eu gostaria que fosse diferente, apenas uma estranha curiosidade sem muita importância. Muita coisa mudou na última rotação da Terra em torno do sol. Eu mudei bastante em relação ao que havia me tornado nos anos difíceis, mas se parar para pensar, afirmo que não mudei, e sim voltei a ser quem fui um dia e por variados fatores externos deixei de ser.
Os últimos dias foram bem interessantes, embora nada tenham me apresentado sobre a tecitura do romance, isso já virou rotina. Minha vida pessoal tem me tomado toda a atenção, mas não reclamo, nem a culpo por tal. Na verdade estava mesmo precisando refletir meus momentos e tormentos e esquecer um pouco o rumo profissional, já que passei bons anos investindo em minha profissão e meus anseios literários, deixando, por conseqüência, minha estima e acontecimentos íntimos de lado.
Imerso nesse clima “retrô-saudosista”, lembrei-me há pouco de certas passagens tolas minhas, tão tolas que me chegam a causar vermelhidão na face. Houve um tempo em que eu escrevia tão compulsivamente que nem mesmo os guardanapos de bar escapavam da minha caneta. Não havia um dia em que eu não escrevinhasse num papel qualquer que pairasse em minhas, hoje trêmulas, mãos. Foram tantos escritos que a maioria foi perdida entre um copo e outro de cerveja. Eram momentos pueris guiados por um forte ideal criativo que aos poucos diminui, tudo graças aos contratempos de uma vida desregrada e à beira de um fim triste, mas anunciado. Onde estão meus textos de bar? Onde estão meus delírios embriagados? Onde estão meus momentos de inconsciência alegre? Desaparecidos numa amnésia provocada em uma memória falha, eis a verdade.
Eu, sinceramente, não sei o porquê do afastamento de algo que me é tão prazeroso. Faz tempo que não me dedico aos meus prazeres maduros; faz tempo que não me tranco no escritório e escrevo ou reviso sem me importar com as horas em que, isolado do mundo, tenho apenas o microcomputador como companhia. E por falar nisso, nem mesmo uma boa leitura tem me feito permanecer sentado no sofá como antigamente era comum. Minha mente não pára. Uma avalanche de pensamentos me põe em risco e a única coisa que posso fazer é não fazer nada. Assim, atividades que me fascinam ficam de lado. Romances, poesias, filmes, nada me acalma o espírito revolto. Isso me entristece deveras.
Digamos que a vida breve mudou da água para o vinho na maior parte das circunstâncias que me rodeiam, mas em alguns pontos, o vinho tornou-se aguado sem que eu o diluísse. Coisa estranha, não? Dentre as mudanças, descobri que a felicidade existe. Eu, um tristão assumido desde os primórdios de minha curta existência, experimentei o gosto da alegria, e vi desenhar-se em meu rosto uma série de sorrisos plenos que jamais pude imaginar que fosse capaz. Depois de sair do inferno astral que me meti inconscientemente, parece-me que cheguei ao limiar entre amor e dor; ilusões sôfregas e realidades ternas... e tenho tensão de seguir para o lado positivo, pasmem.
Já não há mais como esconder, também não há necessidade para tal, finalmente me apaixonei como nunca antes, uma mistura de sobriedade e segurança, dando-me bases e esperanças de construir algo, enquanto ar ainda tenho para me encher os pulmões tão maltratados. Não digo que a reviravolta tenha sido impulsionada por sentimentalidades, até porque não seria uma reforma íntima que leva ao crescimento. Obviamente a contribuição tenha sua importância, mas as derrubadas que a vida me deu foram determinantes para uma revisão do comportamento geral. Processo evolutivo em que aprendemos com erros, ganhamos vivência e chagamos à conclusão de que a maturidade chegou. Só não quero que o amor de hoje se transmute em dor e mágoa um dia, realmente não quero, mas se acontecer, de cabeça erguida, será preciso continuar os passos em busca do desconhecido, com as lembranças dos meus melhores dias gravados na alma enamorada... mas não quero nem pensar que acabe, deixemos o futuro para o futuro, mesmo que não haja o futuro, deixemo-lo para depois.
Atualmente venho recuperando os dias de juventude que deixei passar, andando tão preocupado em solidificar um futuro que não foi o esperado. Se os pontos eu tivesse entregado quando as nebulosidades encobriram minhas vistas, já teria desistido, como sempre, e, talvez, tivesse adiantado o relógio à minha hora derradeira. Não estaria aqui escrevendo minhas histórias, bem provável que a última narrativa estivesse pronta antes do tempo, definitivamente.
Um ato realizado de forma impensada desencadeia uma multidão de aborrecimentos inevitáveis, mas um acerto, que mais se parece com um erro no princípio, na verdade é a correção das utopias e quimeras. Digo que hoje não me cabem as ilusões de antes; hoje o tempo me empregou marcas cruéis, portanto sou obrigado por mim mesmo a viver uma espécie de carpe diem pensado. Não afirmo que deixei de ser triste, mas a felicidade em mim existe e cresce, brota, floresce lentamente. Quem sabe ela perdure nos meus dias finais... E que eles demorem um bom tempo ainda para chegar.


Alberto da Cruz
2007, 20 de setembro

Texto publicado em:
http://www.recantodasletras.com.br/autores/albertodacruz

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Saldos de um mês longe do texto

Angra dos Reis, 10 de julho de 2007

Certo, desde o dia 18 de junho não me aventuro a escrever nada para o blog, lá se vai quase um mês sem que pare o meu dia para detalhar em pormenores minha insanidade e tédio sem fim. Não que não houvesse nenhuma linha a lamentar, pelo contrário, variados fatos me ocorreram, mas não tive realmente tempo para sentar ao computador e escrevinhar minhas ações, frustrações, momentos tenros ou plenos de satisfações. Sim, é verdade, também me satisfaço em minha vida, mas tenho um desejo absurdo de discursar sobre o lado negativo, deixando somente a mim as boas novas de harmonia. Vá lá entender o que se passa na cabeça do homem!

Um dos motivos que me roubaram neste mês foi o trabalho. Fim de semestre é um horror pior do que qualquer história de King ou adaptação de um romance de terror decadente. Nunca antes, na verdade já sim, corrigi tantos trabalhos em um espaço curtíssimo de tempo. Pior é saber que em muito a culpa foi minha, por ter deixado a pilha crescer sem que ousasse diminuí-la de qualquer maneira. A cada semana mais e mais textos se amontoavam sobre minha mesa, armário e até mesmo o chão do escritório, de tal forma que se continuasse como estava, fatalmente eu estaria agora imerso em celulose e tinta de esferográficas. Imaginem a notícia do jornal: “Professor é encontrado morto em sua sala de trabalho, sufocado por inúmeros papéis”, ou ainda, “De exaustão, morre Alberto, depois de corrigir milhares de trabalhos escolares”.

Um pensamento absurdo me apetece agora. Seria incrível se as folhas avulsas ganhassem vida e corressem atrás de mim, exigindo que fossem lidas ou me matariam cruelmente por deixá-las esquecidas. A linha cronológica seria encantadora (às mentes insanas, claro) se pessoas que freqüentam minha casa, uma a uma, fossem desaparecendo sem vestígios, até que enfim chegasse a minha vez de prestar contas com o meu destino. Empunhando a caneta vermelha, enfrentaria a horda celulósica, atacando-as com vistos e notas baixas.

Meu Deus, a que ponto cheguei em minha loucura!!!

De volta à realidade, felizmente consegui pôr fim ao trabalho. Fui obrigado a me isolar por alguns dias e demover toda a minha atenção ao quantitativo acumulado. Fi-lo com desespero, lendo os diversos textos de meus alunos numa rapidez, em certo ponto displicente, que jamais gostaria de ter feito, pois sei que, e isso é o pior, que muitas coisas se perdem nesse processo.

Redações e provas corrigidas, iniciei um processo ainda mais entediante: fechar os diários de classe. Se eu fosse mais responsável, fazendo-os, como o próprio nome diz, diariamente, o trabalho seria mais ameno, mas não, o amigo aqui é preguiçoso e, além disso, não cede nem cinco minutos de suas aulas para atividades burocráticas. Dificilmente me sento à mesa no fim de uma aula para fazer chamadas, anotar conteúdos, lançar notas de trabalhos. Não, deixo tudo para a última hora, assim, aos 44 do segundo tempo, ou já nos acréscimos do árbitro, me lanço à empreitada, geralmente assinando as folhas finais pouco antes de meus diretores me cobrarem o registro das aulas.

Nestes períodos não consigo escrever, tampouco penso no que escrever, o que é irritante para mim. É impossível, uma vez que não posso nem mesmo raciocinar direito. E quem sofre com isso? Todas as pessoas que me rodeiam acabam sendo agredidas pelo meu estresse constante. Descarrego em todas as pessoas que me querem bem as minhas amarguras. Depois só me resta pedir, de cabeça baixa e olhos marejados, desculpas pela minha explosão de ignorância. Obviamente me sinto péssimo quando isso ocorre, mas não posso fazer muito, já que me controlar passa longe dos meus atos.

E assim foi meu mês de junho, ócio misturado ao estresse do trabalho, sem que tenha produzido algo novo. Mas nem tudo foi perdido nesse ínterim fatídico de minha vida, pelo menos, com o tempo em que fugi às minhas responsabilidades, relacionei alguns poemas, 47 para ser exato, para a composição de uma nova antologia. Confesso impressionado que de tudo o que antes fora escrito, esses chegaram a me enternecer e me dar um pouco de orgulho comedido. Acredito que tenha enfim escrito alguns versos de grande valia, se não ao mercado editorial, para mim somente. Não são grandiosos nem obras-prima da poética contemporânea, ao contrário, são bem simples, mas o que me prendem a eles é a carga emotiva pura, imaculada como uma criança que desconhece as vicissitudes da vida ou um amor sublime que não viveu nenhuma dor.

Saldos positivos de um mês desregrado. Tempestividades ocorreram, mas também se fez sol sobre minha cabeça e, por mais estranho que me pareça, eu gostei dos raios quentes e da luz iluminando meu caminho. Eu gostei do brilho intenso dos olhos dela e do seu sorriso a me ver. Eu gostei de sentir o vento em meu rosto quando acelerei meu carro pela estrada e ele não me deixou na mão. Eu gostei de passar noites inteiras acordado sentindo o calor de um mesmo abraço. Eu gostei de ter certeza de que um dia após outro as coisas mudam de figura e melhoram. Eu gostei de terminar algo que comecei e sentir que fiz algo decente. Eu gostei de voltar a escrever depois do período de abstinência e perceber que ainda tenho criatividade para compor as cenas que imagino em minha cabeça cheia de fantasmas; finalmente.

Alberto da Cruz